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Nós temos 16 visitantes online| Psicologia - Entrevista: Evânia Reichert, autora do livro "Infância a idade sagrada" |
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| Eixos transversais - Psicologia | |||
| Escrito por Cláudia Sachs | |||
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A INFÂNCIA É UMA IDADE SAGRADA, QUANDO NASCEM AS VIRTUDES E OS VÍCIOS HUMANOS Veja nos blogs www.vinculosvitais.blogspot.com e www.infanciaaidadesagrada.blogspot.com um pouco mais sobre este projeto de humanização da Infância.
A idéia de escrever sobre a humanização da Infância é antiga. Existe desde a época do Magistério e dos grupos de teatro de crianças que eu coordenava. Sempre estudei e escrevi sobre o assunto. No entanto, a decisão de começar um livro sobre a prevenção das neuroses na Infância surgiu em 2005, a partir do suicídio de um menino de dez anos, em Porto Alegre. A notícia me mobilizou muito. O suicídio nunca foi uma hipótese da Infância e o fato parecia-me inacreditável. No dia seguinte acordei com a decisão de passar a trabalhar com prevenção, nutrida pela admiração que sempre tive pelo projeto de prevenção das neuroses de Wilhelm Reich, iniciado nos anos 20 do século passado, na Áustria.
Você apresenta um estudo sobre a formação do caráter, da gestação à adolescência. Como se dá essa formação? Dentro da abordagem reichiana, a formação do psiquismo humano inicia na concepção e seus primeiros registros se dão no campo somático, inicialmente nas células e depois no sistema neurovegetativo. Hoje, a Neurociência está comprovando que Reich sempre esteve certo: o ambiente uterino não é um lugar silencioso e protegido do mundo externo. O estresse materno produz hormônios como o cortisol, por exemplo, também conhecido como o hormônio do estresse. Ele chega até o bebê pelo cordão umbilical causando aceleração dos movimentos do feto. Se isto ocorrer com freqüência, o temperamento do bebê será afetado, pois o bebê sente o que a mãe sente.
Este fato já estaria formando o caráter desta pessoa em gestação? De certo modo, mas não é exatamente assim. O caráter é uma estrutura, que se forma a partir da passagem da motilidade à mobilidade do bebê, geralmente a partir dos nove meses de vida. Segundo o neuro-psiquiatra reichiano Federico Navarro, um dos autores em que meu trabalho se apóia, durante a gestação se forma o temperamento, que é uma característica inata formada a partir das experiências uterinas e das heranças genéticas. Podemos dizer que o temperamento é a condição geológica do terreno sobre o qual a estrutura caracterial será construída.
Então, a formação do temperamento seria afetada? Quando há uma fixação nessa fase - chamada de ocular por Reich e seguidores –é porque ocorreu alguma forma de interrupção no fluxo do desenvolvimento biopsicológico durante a gestação, no parto ou nos primeiros dias de vida. Então, teremos pessoas fixadas no temperamento, que sofrerão por lhes faltar uma estrutura interna que lhes possibilite lidar com a realidade. Nessa fase se formam os núcleos psicóticos, os tipos esquizóides, os problemas com a epilepsia, as malformações, etc. Vale frisar que tanto as condições ambientais do útero quanto as heranças genéticas interferem, num somatório de influências sobre essa etapa inicial da vida, em que o sistema neuro-sensorial está extremamente sensível e em formação basilar.
A fase ocular é muito importante nesta abordagem? Sim, porque são os registros mais primitivos do desenvolvimento humano, que não podem ser acessados pela palavra ou pela lembrança. Esta é uma das mais importantes contribuições da abordagem reichiana à Psicologia: antes da fase oral, há a ocular. Essa corresponde à gestação, ao parto e aos primeiros meses de vida e seus registros estarão em comprometimentos do sistema nervoso, dos olhos, da audição, da olfação e da pele. Nesta fase se formam os núcleos psicóticos e as estruturas humanas sem estrutura. Devido a isso, a humanização do nascimento - seja no parto natural ou em casos de necessidade de cesariana - é da maior importância na prevenção.
Quais são os autores em que você baseou o seu estudo? O cerne é Wilhelm Reich e seguidores, mas também é importante a contribuição de outros autores. Procurei fazer um estudo comparado, que pudesse gerar reflexão, compreensão mais profunda e discernimento crítico sobre o tema da Infância. Para isso, além de seguidores de Reich, em especial Federico Navarro, David Boadella, Elssworth Baker e Alexander Lowen, o estudo foi complementado com aportes de Donald Winnicott, Erik Erikson, Humberto Maturana, Lev Vigotsky, Ken Wilber, Wilfred Bion, Piaget, Montessori, Ricardo Jones, entre outros.
O livro aborda cada fase do desenvolvimento emocional e psicossocial e a sua relação com a formação do caráter. É feito um estudo sobre os tipos de personalidade?
Sim, o foco é o desenvolvimento psicossexual (emocional) e o psicossocial. Porém faço uma relação pontual com o desenvolvimento cognitivo, para auxiliar o estudo. O grande tema do livro é a prevenção. Porém, no final de cada fase estudada, há uma parte sobre a formação do caráter, em que descrevo brevemente os tipos de caráter relacionados, com a intenção de o leitor compreenda como a fixação infantil se manifesta no comportamento adulto. No entanto, o aspecto mais importante do livro é a compreensão sobre as potencialidades, as aptidões humanas que estão se formando em cada etapa. Por desconhecimento de pais, educadores e cuidadores, essas aptidões muitas vezes são podadas em sua raiz e nem chegam a se desenvolver.
Achas que os adultos sabem disso? Penso que na maioria dos casos, os adultos não têm essa intenção e nem sabem o que está nascendo naquele momento. Também não compreendem a importância decisiva da Infância na formação humana. Muitas vezes também não avaliam o quanto os seus modos de agir e reagir frente aos pequenos pode ser marcante, positiva ou negativamente. Se pensarmos bem, esse é um tema novo. Há pouco mais de cem anos a criança ainda era vista como um adulto em miniatura e não se cogitava que a relação entre as fases da infância e as doenças mentais. Falava-se muito em deus e diabo e pouco em ser humano. Um século é um tempo histórico muito pequeno para uma mudança cultural. Estamos no meio deste processo de conscientização e mudança.
Esse é um tema muito longo. De modo sintético, podemos sinalizar que no período de sustentação (fase ocular) se estabelece a capacidade de contato consigo mesmo, com o outro e com a realidade. No período de incorporação - do nascimento aos dezoito meses (fase oral) se desenvolve a confiança básica, a alegria e o primeiro registro de vínculo e humanidade em nossa vida. Na etapa de produção (anal) - dos dezoito meses aos três anos - , nasce a autonomia, o autovalor, a vontade própria e a arte. Na fase seguinte, a genital infantil - que se estende dos três aos 12 anos, dentro da abordagem reichiana - há dois períodos decisivos: o período de identificação sexual (dos três aos seis anos), quando nasce a curiosidade, a iniciativa e o primeiro registro de gênero. No período seguinte - o de estruturação do caráter - se desenvolvem aptidões como a estima operacional, o gosto pelo conhecimento e pelo trabalho e a sensação de capacidade de fazer as coisas. Nessa etapa, a personalidade se desenvolve rapidamente, integrando as diversas etapas da Infância.
E na adolescência? Bem, a adolescência é o passar a limpo de cada uma das pendências das fases precursoras, é buscar equacionar as pendências do passado para que possamos avançar em direção à vida adulta. A pergunta central do adolescente é "quem sou eu?" e ao perguntar isso ele vive um impasse, que lhe remete a quem ele foi até aqui, a quais são as suas dificuldades, a como é a sua auto-estima. Ao mesmo tempo novas perguntas surgem: quem serei no futuro, o que desejo, quais as condições que tenho para avançar e ingressar no mundo dos seres adultos?
Qual a contribuição que esse conhecimento pode trazer para os pais, educadores, cuidadores de crianças? Eu acredito que ele possa ser importante para iniciarmos um novo tempo. Estamos vivendo um momento de crise das velhas formas de criar e educar crianças e adolescentes. Hoje, é comum que pais e professores não saibam mais o que fazer, como lidar, com seus filhos e alunos. O fato novo é que as novas gerações não obedecem mais aos comandos autoritários, à educação hierárquica. Diante disso, a crise está estabelecida. Em meios ao caos, parece-me que existe algo a ser compreendido. Esse é um dos temas que abordo no livro, inspirada por um grande pensador da atualidade, o educador e psiquiatra Cláudio Naranjo. Ele pensa com brilhantismo sobre a falência dos modos patriarcais de educar, que acompanham a agonia do sistema patriarcal em nossa sociedade, e aponta a evidência de um novo caminho educacional, que passa pela Educação para Ser, além do ensinar a aprender, a fazer e a conviver.
Estamos no auge de uma fase de transição? Sim. Naranjo debate este assunto com grandes pensadores da atualidade e a indicação é o surgimento de um novo paradigma, que ele chama de educação heterárquica, onde pai, mãe e filho não tenham uma posição hegemônica, mas exista equilíbrio e respeito entre estas três energias. Poderíamos dizer que se trata de um caminho democrático e humanizado na educação. De certa forma, esse conceito já foi trazido anteriormente por Maria Montessori, Paulo Freire, Reich e outros tantos nomes na pedagogia e no humanismo.
Mas, como se daria uma educação heteráquica?
Quando se fala de pai, mãe e filho, é preciso compreender também como uma tríade da nossa interioridade. Trata-se de um princípio de respeito e auto-regulação entre as nossas tendências de caráter de sermos patriarcais, matriarcais ou filiarcais em nossas relações. Em certas famílias, na atualidade, o filiarcado já está instalado, por exemplo. O mando e o domínio são dos filhos pequenos e os pais estão desesperados, não sabendo como lidar, o que fazer. Em outras casas, o pai manda e decide tudo, oprimindo a mulher e a criança. Há ainda os casos em que as mulheres dominam, desmerecendo os homens e interferindo excessivamente sobre a autonomia das crianças. Em todos estes casos, há desequilíbrio, o que afetará a formação do caráter das novas gerações.
Este é um novo caminho na educação? Não diria que é novo, pois desde Jean Jacques Rosseau já se fala disso. Mas, na atualidade, diante da evidência da falência moral do modelo patriarcal e hierárquico de educar, ele ressurge como um novo paradigma, um vislumbre de um caminho para sairmos do caos deste momento, em que os modelos antigos não funcionam mais e os novos ainda não estão claros. Naranjo analisa a História e diz que já vivemos tempos filicarcais e anárquicos, tempos matriarcais ou matrilineares e que o patriarcado já viveu seu tempo áureo, estando em plena derrocada, após abusar do seu projeto de dominação, violência, uso e abuso da natureza e da força de trabalho humana. A derrocada aparece na cultura, na falta de respeito aos perfis patriarcais da atualidade.
Como isto se revela? Não está na pauta dos jornais, por exemplo.
É verdade. Mas, a dominância dos jornais e da TV também está em mudança e acho que isso vai gerar, no futuro, outros tipos de pauta. Como estamos em meio ao caos, devido à transição, nos sentimos um tanto perdidos. Isso aparece também nos veículos de comunicação, no que é veiculado, no que recebe destaque ou não. Também sou jornalista e trabalhei por vinte anos em jornal e televisão. É o tempo em que as reportagens de peso são cada vez mais raras. Mas, a imprensa também está em crise, penso eu. Há algo que está ocorrendo nos subterrâneos, ou melhor, no campo virtual, sem domínio de um grupo ou outro. É mais um sinal de derrocada do modelo patriarcal da nossa sociedade.
Sim, é a democratização da informação. É o fim do domìnio de um grupo de poder ou de outro. Ainda é disperso, confuso, com muitas coisas de péssima qualidade misturadas às de boa qualidade. Mas, isso é inevitável e ascendente. Outro dia vi no Orkut que existem comunidades de Nascimento Humanizado com mais de cinco mil participantes. São várias comunidades sobre o tema, com milhares de pessoas. A cada dia novos projetos de humanização aparecem e mais e mais pessoas se engajam. A cada dia novas escolas surgem, de diversas linhas, mas todas voltadas também à Educação para Ser.
Você acha que estes são sinais dessas mudanças? No meu ponto de vista, isso é a maior evidência de que os grandes pensadores da educação e do humanismo da atualidade dizem: um novo paradigma está aí e se estivermos no mundo de modo menos hierárquico e mais heterárquico, agilizaremos a mudança. Na verdade, ela já começou a acontecer, felizmente. Se alguém ainda estiver em dúvida, pergunte às novas gerações. Não acho que elas estejam tão perdidas quanto dizem. Nos anos 70, quando andávamos de pés descalços e pedindo paz e amor, nossos pais também estavam desesperados com as nossas opções. Nem por isso a nossa geração deixou de ser extremamente criativa, inovadora e produtiva. É preciso olhar o novo que nasce com novos olhos. Ele não será traduzido pela língua patriarcal, nem pela matriarcal e nem mesmo pela anarquia filiarcal. Mas... talvez... pelo equilíbrio entre elas.
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Se um bebé de um mês que costuma imitar certos gestos derrrepente deixa de o fazer, devo ficar preocupado?
A entrevista é enriquecedora.
Carlos Cartaxo