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O artigo traz reflexões acerca do brincar e do fazer musical na infância, a partir do entrelaçamento das experiências pessoais (do tempo de criança) e profissionais (pedagógico-musicais) com crianças e adolescentes na faixa etária de 3 a 14 anos de idade na área da educação musical, especificamente no processo da musicalização. As fotos são de projetos do Centro Comunitário São Francisco de Assis, Amparo. Apoio: Lei de Incentivo à Cultura de Amparo e Prêmio Culturas Populares Mestre Duda 100 Anos de Frevo, do Ministério da Cultura (SID).
Quando me dei por gente, talvez perto de dois anos de idade, o mundo era todo cheio de sons e de músicas, de pessoas e de coisas diferentes e curiosas, ora mais ora menos engraçadas na minha visão
de criança. Era o princípio de minha vida neste planeta, digamos assim, mais consciente, a famosa relação eu no mundo, o mundo e eu. Um instante mágico que guardo ainda hoje em minha lembrança, e tudo e todos simplesmente eram.
No começo de tudo, no ambiente familiar, a voz e a cantoria de minha mãe que gostava de música tradicional (cancioneiro infantil) e caipira (Tião Carreiro, Tonico e Tinoco e outros), a voz de meu pai e a música de sua gaita (músicas de diversos gêneros, principalmente as jazzísticas, eruditas, instrumentais e populares brasileiras), a voz de minha avó paterna e as suas canções tradicionais italianas e de óperas, as vozes desconhecidas e as músicas dos radinhos de válvula e de pilha (ora no quintal ora na cozinha), as músicas dos discos de vinil (a vitrola da família, um enorme e pesado móvel na sala), o som do telefone de parede, alguns sons distantes de animais e da cidade.
E depois dos sons e das músicas, notei as pessoas e as coisas ao meu redor, a rotina do dia-a-dia de uma casa, as ações, os
enfrentamentos, tudo dinâmico, vivo, amoroso e organizado.
Não havia televisão e o mundo era simplesmente assim: o mundo de dentro e de fora de casa, o mundo do adulto e o mundo da
criança, o mundo dos trabalhos e o mundo dos brinquedos. Aos poucos, o mundo da rua, da cidade e dos estranhos foi-me ora permitido ora conquistado. E como no começo de tudo também não havia escola, até os cinco anos de idade o meu mundo era apenas brincar e aprender com os pais, os irmãos, os amigos da rua e outros adultos. No meu olhar de criança, não havia tristeza nem pobreza, e tudo era encantamento, prazer, alegria e afeto. Também não havia o julgamento, e a beleza era sempre presente mesmo quando ausente.
O brincar era espontâneo e praticamente acontecia todos os dias, geralmente após o café da manhã (dentro de casa, com os irmãos), após o almoço (na rua, com os amigos), e após o jantar (com os pais ou familiares). A brincadeira de rua, por exemplo, implicava numa forma de organização social e, consequentemente, numa aprendizagem social a partir das interações dos indivíduos.
E no princípio eram as escutas diversas, de cantos infantis, de contos de fadas, de causos e de lendas do país, de estórias e de músicas dos disquinhos de vinil, da imaginação, de livrinhos de cordel
que minha mãe recitava de memória, de piadas e de brincos como os
trava-línguas e as parlendas, da gaita de meu pai, dos cantos de
pássaros e outros sons do cotidiano.
Através das escutas de contos de fadas, a fantasia aflorava e um mundo imaginário era tecido passo a passo, o meu mundo de sonhos, onde novas personagens se entrelaçavam, com novos
detalhes, uma brincadeira que me possibilitava fazer, desfazer e refazer coisas, pessoas, lugares, e ações. E assim, horas a fio, inventava e reiventava mundos invisíveis que desapareciam quando eu escutava a voz de minha mãe chamando para o banho.
O ato de escutar uma estória infantil ou música de um disquinho de vinil, por exemplo, significava escutar, dramatizar, cantar, gesticular, improvisar sons, dançar, bater palmas, desenhar, tocar um instrumento, emocionar-se, entre outras ações, repetidas e incansáveis vezes até a memorização ou aprendizado, como num jogo, num brinquedo.
E quando a escuta era em grupo, a brincadeira estruturava-se
de outras formas, por exemplo, um indivíduo do grupo mais
desinibido propunha um gesto, mímica ou dramatização e os demais
participantes prontamente o imitavam. A mesma brincadeira tornava-se mais complexa conforme a
entrada de um indivíduo mais experiente no grupo que, geralmente,
propunha as regras, o vocabulário específico, os momentos de cantar
em grupo ou sozinho (o mais afinado, por ex.), que criava o texto e a
música, que distribuía as personagens da estória conforme o
tamanho da criança, da idade, da personalidade, ou da habilidade de cada um, e que efetivamente colaborava na estruturação da brincadeira e na organização social. 
Os mais experientes eram chamados de mestres, e os menores eram os aprendizes, e havia respeito e acatamento das decisões. E as repetições eram sempre prazerosas, pois, todos sabiam que o
sucesso da brincadeira residia no trabalho de cada um ou do grupo. A brincadeira e o grupo era uma coisa só.
O brincar é um fenômeno social vivo, dinâmico, lúdico, espontâneo, prazeroso, salutar, participativo, sempre criativo e reinventado. Através do brincar, o conhecimento do mundo e da própria cultura da infância são apresentados gradativamente à criança.
Na realidade, o brincar traz consigo o próprio brincar, a ludicidade, a alegria de estar num mundo especial, o mundo do ser brincante, o misterioso mundo dos brinquedos.
As brincadeiras de rua ou brinquedos eram inúmeros: amarelinha, roda, casinha, balança-caixão, pula-corda, pião, cabra-cega, pega-pega, bolinha de gude, esconde-esconde, estátua, brincos, trava-línguas, cantorias, pula-saco, pular com uma perna só, falar na língua do "e", pintar, desenhar, amassar barro ou argila, andar de costa, andar de olhos fechados, pique-salva, par ou ímpar, cavalinho de pau, boneca, soldadinho de chumbo, papagaio, loja, tocar tambor, boneca dorminhoca, marionete, teatrinho de fantoches, peteca, etc.; além dos jogos como o lança-dado, lança-pedrinhas, rouba-monte (baralho), as cinco marias, quebra-cabeça, queimada, dominó, jogo da velha, argola, jogo do taco, bafo, passa-anel, apostar corrida de bicicleta, dama, batalha naval, entre outros.
E um dos aspectos interessantes da organização do grupo é que ora se decide por brincar aos pares, ora por brincar em pequenos grupos de meninas e meninos (conforme o interesse e a complexidade), ora por brincar todos juntos. Todos partilham do brinquedo, os brincantes mais ativos ou os observadores.

Partindo desta análise inicial em relação ao brincar, a música ou o fazer musical apresentou-se em minha vida como uma brincadeira de rua ou um jogo de criança. Cantar e dançar era um só brinquedo.
Tocar um instrumento ou participar de um coral era mais uma forma de atividade lúdica do tempo de criança.
O fazer musical era um jogo com regras mais complexas, que exigia de mim novas capacidades, sensibilidades, destrezas, além de uma dedicação mais individualizada, porém, muito próxima das minhas brincadeiras de escutas e de criação de estórias.
Com base na teoria de Jean Piaget, o educador francês François Delalande relacionou os três tipos de jogos: sensório-motor (experimentação sonora e gestual), simbólico (capacidade de expressão e significação da linguagem musical/música), e com regras (organização e estrutura da linguagem musical/música) à evolução das diferentes culturas musicais; aproximando a linguagem da criança à linguagem musical de grandes compositores. A criança ou mesmo o bebê vivenciam os sons, experimentando-os de diferentes maneiras, criando e recriando-os como numa brincadeira ou jogo de
regras mais ou menos complexas conforme a idade.
Educadores musicais como, por exemplo, Orff, Kodaly, Willems, Self, Paynther, Gainza, e Shafer propuserem recursos pedagógico-musicais com base nos jogos de exploração sonora, rítmico-corporal, melódica, polifônica, harmônica etc. para o ensino e a prática musical com crianças e jovens. A educadora musical Lilia Rosa desenvolve técnicas pedagógico-musicais ou metodológicas a partir do uso de
jogos e brincadeiras de rua da cultura popular brasileira (folclore
infantil) no processo de musicalização ou de aquisição da linguagem musical e, consequentemente, do próprio conhecimento musical. E deve "agregar de imediato o prazer, a alegria, a satisfação da criança em aprender Música (...) e este é o grande desafio, modernizar-se; ou seja, pesquisar e recriar técnicas pedagógicas que sustentem o verdadeiro interesse afetivo-cognitivo da criança" (Rosa, 1996) e; principalmente, em conformidade com as diversas realidades sócio-culturais de nosso país.
O fazer musical proporciona benefícios de ordens diversas: educacional, social, física, moral, intelectual, emocional, terapêutica e espiritual. Porém, para Marisa Fonterrada (2001), como no Brasil
pouco se discute acerca da filosofia da educação musical, é necessário "repensar os modos de implantação de seu ensino e de sua prática", além de maior discussão acerca do valor e do papel da música junto aos educadores e a sociedade em geral. Somente assim o fazer artístico não seria definitivamente preenchido, como tem acontecido em muitas escolas, por atividades lúdicas, de lazer e de
entretenimento.
Lilia Rosa é educadora musical, mestre em música pela UNICAMP e doutoranda em música pela Escola de Comunicação e Artes da USP.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARROS, Célia Silva G. Pontos da Psicologia do Desenvolvimento. São Paulo: Ática, 2002.
BRITO, Teca Alencar. Música na educação infantil. São Paulo: Peirópolis, 2003.
BROUGÈRE, G. Brinquedo e cultura. São Paulo: Cortez, 1997.
DELALANDE, F. La musique est um jeu d'enfant. Paris: Buchet-Chastel, 1984.
FONTERRADA, Marisa Trench de Oliveira. De tramas e fios: um ensaio sobre música e educação. Tese de Livre Docência, Curso de Pós-Graduação em Música, Instituto de Artes, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita, SP.
PONTES, Fernando Augusto Ramos; MAGALHÃES, Celina Maria Colino A transmissão da cultura da brincadeira: algumas possibilidades de investigação. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2003, vol.16, n. 1, ISSN 0102-7972.
ROSA, Lilia de Oliveira. Música brasileira para coros infantis (1960-2003): catálogo online com obras a cappella. Dissertação de Mestrado, Curso de Pós-Graduação em Música, Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, SP. 2005
__________________. Musicalização, para pré-escola e iniciação musical,
nível 1. 1ª.ed. São Paulo: Vitale, 1988.
__________________. Musicalização, a partir de 7 anos, nível 2. 1ª.ed.
São Paulo: Editora de Autor, 1996.
SELIG, Sylvie. Kangaroo. London: Jonathan C., 1980.
NOTAS
1 Grupo de crianças e adolescentes brincando de roda, em frente ao Centro Comunitário São Francisco de Assis (CCSFA), Amparo (SP). Foto do Arquivo de Lilia Rosa: CCSFA 2008.
2 Aulas de musicalização infantil no Centro Comunitário São Francisco de Assis (CCSFA), Amparo, turma Profic I, de 3 a 7 anos de idade. O livro não possui legenda. A estória é imaginada pelo professor, grupo ou ambos.
Objetivos: brincar, imaginar, explorar gestos, sons e textos, improvisar, sonorizar, dramatizar, expressar, criar música e estória coletiva, e desinibir. Foto do Arquivo de Lilia Rosa: CCSFA 2007.
3 Idem. Geralmente, a criança pequena, de 3 a 4 anos de idade, desenha a personagem que mais lhe chama a atenção, que marca emocionalmente ou, ainda, que lembra um membro familiar bem próximo de seu contexto social-familiar-afetivo. Foto do Arquivo de Lilia Rosa: CCSFA 2007.
4 Idem. Grupo de crianças de 3 a 7 anos de idade, imitando um canguru a partir da escuta de uma estória. Foto do Arquivo de Lilia Rosa: CCSFA 2006.
5 Idem. Grupo de crianças de 3 a 7 anos de idade, com a presença do mestre José Paulo (criança de 12 anos), que tem a capacidade de criar e liderar bem acentuada. Foto do Arquivo de Lilia Rosa: CCSFA 2006.
6 Idem. Grupo de crianças e adolescentes, em frente ao CCSFA. Foto do Arquivo de Lilia Rosa: CCSFA 2008.
7 Idem. Grupo de crianças e adolescentes brincando aos pares, em frente ao CCSFA. Foto do Arquivo de Lilia Rosa: CCSFA 2008.
8 Grupo de meninos, em frente ao CCSFA. Foto do Arquivo de Lilia Rosa: CCSFA 2008.
9 Apresentação do teclado ao grupo de crianças e adolescentes: exploração do brinquedo-jogo. Foto do Arquivo de Lilia Rosa: CCSFA 2008.
10 Orquestra de flautas-doce do CCSFA. Foto do Arquivo de Lilia Rosa: CCSFA 2007.
11 Aluna Tamae, 5 anos de idade, notação contemporânea a partir do Jogo da Velha. Foto do Arquivo de Lilia Rosa: SP 2008.
12 Grupo de crianças e adolescentes, em frente ao CCSFA. Foto do Arquivo de Lilia Rosa: CCSFA 2008.
ROSA, Lilia de Oliveira.
Música:Jogo:Brincadeira:Criança [reflexões acerca do brincar e do fazer musical na infância]
Portal da Rede Cultura Infância: São Paulo: 13 mai 2008 
Clique aqui para baixar esse artigo em formato PDF (musica.pdf 324kb)
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E se puder nos dê o retorno do que achou do projeto.
Agradeço desde já.
Ana Lúcia.
Musicalmente
Sidney Mattos
Espero que um dia esse projeto de vida alcance uma consideravel legião de pessoas,que acreditam num amanhã novo e compensador para a musica na classes de todos os niveis.
Agradeço pela fonte de determinação que tem,e acredito que tudo que se faz tem o seu preço e o seu valor,e contrara isso tudo em seu dia a dia...
Uma abração e fica com Deus.
..Wellington clássico..
Seria:
Querida professora e pianista Ana Amélia, uma honra a sua visita e leitura ao artigo. As reflexões são, sem dúvida, de um tempo que não volta, mas, como VC mesmo disse com um pouco de criatividade as coisas acontecem...brincar e fazer música é fundamental e indissociável, não é mesmo?
E achei muito interessante todo o conteudo de técnicas que vc usa com suas crianças, tanto que vou encaminhá-lo a colegas que fazem esse trabalho de musicalização , aqui em Vitória-ES , na faculdade de musica. O tempo é outro, as condições não são as mesmas , mas com criatividade se consegue aproveitar muito do que foi dito acima.
Continue mandando seus escritos, certamente eles serão bem aproveitados por aqui.
Grande abraço , Ana Amélia.