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Nós temos 15 visitantes online| Teatro e poesia: uma experiência no mundo de Quintana |
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| Literatura - Riscos e Rabiscos sobre Livros e Leitura | |
| Escrito por Fabiano Tadeu Grazioli | |
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1. Considerações iniciais
O espetáculo Quintana in cômoda, encenado pelo Teatro de Gaiola (Erechim-RS) e produzido pela Confeitaria de Teatro estreou em fevereiro de 2006. Durante o referido ano realizou uma trajetória de apresentações por importantes cidades do Rio Grande do Sul e do Brasil, destacando-se enquanto espetáculo teatral e também como uma montagem de destaque, construída a partir da obra do poeta gaúcho Mario Quintana no ano do centenário do seu nascimento. O presente texto traz algumas considerações sobre a configuração da poesia de Quintana na linguagem teatral. Durante nossa análise apresentaremos algumas fotografias do referido espetáculo, mas embora sabendo que a fotografia traz em si elementos narrativos, e que no conjunto dessas, o leitor pode recuperar a seqüencialidade lógica da narrativa, nosso objetivo não é apresentar o enredo que subjaz na montagem, mas sim, ilustrar a configuração da poesia quintanar na referida peça. Primeiramente apresentaremos algumas informações sobre a montagem.
1.1. Sinopse[1]
Dona Cômoda guarda em suas gavetas “coisas” de outros tempos... Dentre elas, guarda três (pseudo) personagens, três “coisas”, que vão se conhecendo na medida em que também conhecem o que esconde cada gaveta. Sapato que vira monstro, borboleta é par para uma dança. Moldura velha que vira janela. Bule que propõe um chá. Assim, as “coisas” guardadas ganham vida e se transformam, através da poesia de Mario Quintana. Um espetáculo para comemorar o centenário do nascimento do poeta e conduzir o público a encontrar a magia, o encantamento e a teatralidade presentes em sua obra.
2. A poesia no teatro
Adaptar é uma tarefa assustadora para qualquer artista. Transpor uma obra artística para outra é algo ainda pior. Quantos de nós já assistimos a filmes que muito se distanciaram dos livros de que foram adaptados? E músicas vindas de poemas? E quadros vindos de personagens literários? E esculturas de salmos? Diversos espetáculos teatrais, principalmente na contemporaneidade, têm sido concebidos a partir da obra poética de diversos autores. Contudo, não existe uma teoria para essa transposição, pois cada obra é única, assim como cada intenção de montagem, cabendo assim, ao roteirista e ao diretor, promoverem a configuração da obra poética do autor por eles escolhido em outra linguagem.
No caso de Quintana in cômoda, percebemos a fusão de dois sistemas artísticos distintos (textos líricos e espetáculo teatral), que resulta em um movimento bastante intenso, que busca articular a linguagem cênica em direção à poesia do autor gaúcho, sem deixar que desapareçam, nesse processo, elementos fundamentais do teatro. É a partir do poema Só para si que o enredo se estrutura:
Dona Cômoda tem três gavetas,
E um ar confortável de senhora rica.
Nas gavetas guarda coisas de outros tempos, só para si.
Sempre foi assim, dona Cômoda: gorda, fechada e egoísta.
(QUINTANA, 1976a, p. 90)
No roteiro, o poema é dividido em duas partes: os três primeiros versos são os textos de abertura e, o último, o texto de encerramento, sendo que todos os demais poemas utilizados são inseridos nesse espaço. Além disso, o poema oferece aos encenadores os personagens do enredo: a Dona Cômoda, que na montagem constitui o principal elemento cenográfico, conforme podemos perceber na foto abaixo, mas que também existe na dimensão de personagem, como já quis Quintana em seu poema, e as “coisas” que ela guarda em suas gavetas.
Neste espaço (real e simbólico), estão ocultadas “coisas objetos” e “coisas personagens”, que, inesperadamente, se lançam para o lado exterior e procuram conhecer os outros, através das “coisas objetos” que cada um traz em sua gaveta. Dessa situação, surgem cenas inusitadas, que culminam com poemas de Quintana, sendo esses o limite da ação verbal da encenação. ![]() Primeira manifestação das “coisas personagens”. ![]() As “coisas personagens” se lançam para o mundo. A busca da síntese, a sutileza de idéias e as metáforas são outros elementos que garantem a transposição sensata da produção poética de Quintana para o espetáculo teatral. ![]() Um exemplo da tradução da metáfora de Quintana: o cachecol transforma-se em cortina. Não se trata, assim, de uma adaptação do texto quintanar, mas, sim, de uma revisão, com novo olhar, de todos os códigos simbólicos que o poeta constrói ao escrever o texto na folha branca e ao inscrevê-lo no imaginário de cada leitor. Tendo o escritor mobilizado imagens e as sensações ao longo de sua obra poética, o papel do adaptador, aqui, foi o de percorrer os passos trilhados por essas imagens e captá-las, às vezes, de forma selvagem, para não mais o espaço bidimensional da folha em branco, mas para a arena do teatro contemporâneo. ![]() Imagem poética criada pelos atores a partir da borboleta amarela, do poema Outono.
Assim, se de um lado temos a cômoda, as “coisas” personagens e as “coisas” objetos, elementos concretos próprios do teatro tradicional, de outro temos as imagens que são construídas nos encontros e nos desencontros que acontecem em cena. Os acontecimentos são, como também no teatro tradicional, os elementos líricos advindos da literatura poética.
![]() Imagem poética criada pelos encontros e desencontros em cena
Alguns poemas, no espetáculo, são apenas ilustrados com a presença de objetos que aparecem na poesia de Quintana, e que, no contexto geral da mesma comparecem como símbolos, alguns dos quais muitas vezes recorrentes. É o caso da lata de sardinha, que aparece no poema Mentiras:
(...)
O trem descarrilhou. E o mocinho? Meu Deus!
No auge da confusão, levaram Lili para a cama à força.
E o trem ficou tristemente derribado no chão,
Fazendo de conta que era mesmo uma lata de sardinha.
(QUINTANA, 1948, p. 79).
O catavento também figura enquanto objeto, e além de aparecer no título de uma obra, Rua dos Cataventos (1940),seu livro de estréia, é outro elemento contemplado em muitas de suas poesias. Na cena em que aparece, o catavento espalha o vento, outro elemento recorrente na obra do poeta. Utilizando-se do som do vento os atores jogam com o sentimento de medo, situação que traz ao palco o poema Canção de vento e nuvem:
Medo da nuvem
Medo Medo
Medo da nuvem que vai crescendo
Que vai se abrindo
Que não se sabe
O que vai saindo
Medo da Nuvem Nuvem Nuvem
Medo do vento Medo Medo
Medo do vento que vai ventando
Que vai falando
Que não se sabe
O que vai dizendo
Medo do vento Vento Vento
Medo do gesto Mudo
Medo da fala Surda
Que vai movendo
Que vai dizendo
Que não se sabe...
Que bem se sabe
Que tudo é nuvem que tudo é vento
Nuvem e vento Vento Vento
(QUINTANA, 1994, p. 49).
O poema Auto-retrato, do livro Apontamentos de história sobrenatural (1976), também é lembrado por meio de uma moldura, que se transforma em janela, através da qual os personagens avistam e interagem com o mundo exterior ao quarto.
![]() Uma relação com o poema Auto-Retrato.
Uma outra forma de transpor elementos da poesia quintanar é através dos diversos sons utilizados na trilha do espetáculo. Um exemplo desse recurso é o som dos grilos, evidenciado pelo poeta em diversos poemas, alguns dos quais são verbalizados pelos personagens, em meio ao jogo estabelecido em cena. É o caso de Noturno arrabaleiro:
Os grilos... os grilos... Meu Deus, se a gente
Pudesse
Puxar por uma
Perna
Um só grilo
Se desfiariam todas as estrelas.
(QUINTANA, 1976, p. 87)
E do poema em prosa Os grilos:
“Toda noite os grilos fritam não sei o quê. A madrugada chega, destampa o panelão: a coisa esfria” (QUINTANA, 1994, p. 9).
Como uma obra teatral, Quintana in cômoda pressupõe um drama, isto é, se propõe a ser espaço para o inter-relacionamento de ações e/ou sensações que gerem conflito. Cada conflito funciona como mola propulsora a fim de conduzir o espectador para outro conflito, tradicionalmente maior, até que se chegue a um ápice em que todas as necessidades sejam resolvidas.
![]() Os conflitos se resolvem, e os personagens ao amanhecer, voltam para suas gavetas.
3. Considerações finais Enquanto prática leitora, a recepção da peça oferece ao público um mergulho no universo do autor, podendo, inclusive, promover a sua introdução neste contexto, bem como no mundo da poesia de forma geral. Dentre tantos princípios que orientam a leitura nessa perspectiva, salientamos que quando se busca contribuir significativamente para a formação de leitores, é preciso aproximar o indivíduo das diversas linguagens, uma vez que sua competência leitora é resultado dessas interações.
4. Referências bibliográficas QUINTANA, Mario. Apontamentos de história sobrenatural. Porto Alegre: Globo, 1976 (a). QUINTANA, Mario. A Rua dos Cataventos. Porto Alegre: Globo, 1940. QUINTANA, Mario. Lili inventa o mundo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1994. QUINTANA, Mario. Quintanares. 4ª edição. Porto Alegre: Globo, 1976 (b). QUINTANA, Mario. Sapato Florido. Porto Alegre: Globo, 1948. Este texto foi escrito com colaboração de Rodrigo Monteiro (Licenciado em Letras - Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e mestrando em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e foi apresentado no formato “pôster” no III Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil do Oeste Paulista, realizado em 2007, em Presidente Prudente – SP.
[1] Informação retirada do programa do espetáculo. Segue também a ficha técnica:Roteiro: Ana Carolina Makki Dal Mas, Direção: Fabiano Tadeu Grazioli, Cenografia: Jolcinei Luis Bragagnolo, Figurino: Fabiano Tadeu Grazioli, Jolcinei Luis Bragagnolo, Trilha Sonora: Fabiano Tadeu Grazioli, Iluminação: Ana Carolina Makki Dal Mas, Maquiagem: Teatro de Gaiola, Elenco: Adriano Massaro, Ana Carolina Makki Dal Mas, e Tiago Luis Rigo.
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