Música: As músicas das crianças na sala de aula PDF Imprimir E-mail
Música - Artigos e Teses


Por Viviane Beineke:

A importância do desenvolvimento criativo no ensino de música é praticamente um consenso entre os educadores musicais. Há muito tempo são desenvolvidas metodologias que valorizam o fazer musical das crianças na educação musical e não é nova a idéia de que as crianças podem criar ou compor suas próprias músicas. Com esse ponto em comum, encontramos práticas diversas de composição em sala de aula, orientadas por princípios e objetivos muito diferentes.

As justificativas mais freqüentes para o uso da composição na aula de música visam o desenvolvimento da criatividade, a fixação de conceitos musicais e o entendimento de que as atividades de composição valorizam os discursos musicais dos estudantes.
Na literatura sobre composição musical na escola, muitas propostas pedagógicas discutem a importância da atividade de composição para o desenvolvimento da criatividade. A maioria destes trabalhos procura alternativas aos programas tradicionais de educação musical, centrados prioritariamente no ensino de conceitos, da notação musical, da história da música ou na execução de um instrumento. Com as discussões girando em torno do potencial criativo das crianças, é defendida a aprendizagem pela descoberta.

Argumenta-se que compor é a melhor forma de aprender música e que é preciso descobrir o potencial criativo dos estudantes. As atividades exploratórias de manipulação dos materiais musicais são enfatizadas e algumas propostas estão vinculadas à estética da música contemporânea.
A proposição de atividades de composição com o foco na aprendizagem de elementos musicais leva a uma abordagem mais diretiva, visando à fixação de conceitos musicais específicos através da composição. Nessa perspectiva, as atividades são conduzidas pela idéia de que os conceitos aprendidos poderão ser aplicados na composição, por exemplo: compor uma música a partir dos conceitos de grave a agudo, forte e fraco ou explorando timbres.

Quando essa orientação é predominante, o potencial educativo da composição no ensino de música fica bastante limitado, podendo conduzir a uma homogeneização das músicas produzidas pelas crianças ou à fragmentação da experiência musical. Diversos autores, como David Elliot (1995), Keith Swanwick (2003) e Coral Davies (1992), criticam essa abordagem, explicando que os conceitos musicais podem ser úteis quando as crianças vão organizar sua compreensão ou comunicar idéias, mas o significado da música não pode ser encontrado na altura, duração, timbre ou intensidade.

Outra tendência no ensino de música reflete o entendimento de que a atividade de composição oferece amplas possibilidades para a tomada de decisões musicais pelos estudantes. Segundo Swanwick (2003), a composição é inerente a uma proposta de educação musical que está preocupada em tratar a música como um discurso e a dar atenção ao discurso musical dos alunos. Segundo ele, a atividade de composição oportuniza que os alunos tragam suas próprias idéias à sala de aula. Desse modo, a educação formal e a música “de fora” podem ser fundidas, revelando, até certo ponto, os universos sociais e pessoais dos estudantes.

A forma como são compreendidos os usos e funções da composição no ensino de música está sempre refletida no nosso trabalho, por isso é tão importante que estejamos cientes das concepções que orientam nossa prática educativa. Trabalhando com as músicas que as crianças fazem, podemos favorecer o reconhecimento e valorização das diferenças, à medida que aprendemos a ouvir, respeitar e compreender as vozes dos nossos alunos, em um processo comprometido com o seu desenvolvimento musical. Nessa perspectiva, o professor pode atuar como um crítico sensível e articulado às relações que se estabelecem com a música em sala de aula, auxiliando os alunos a refletirem sobre as suas práticas musicais. Ao compartilhar esse processo com os alunos, o educador musical instiga-os a construir o seu próprio conhecimento nos âmbitos da autonomia de pensamento, fluência e crítica musical.

Bibliografia

BEINEKE, Viviane. A composição em sala de aula: como ouvir as músicas que as crianças fazem? In: HENTSCHKE, Liane; SOUZA, Jusamara (org). Avaliação em Música: reflexões e práticas. São Paulo: Moderna, 2003, p. 91-105.
DAVIES, Coral. Listen to my song: a study of songs invented by children aged 5 to 7 years. British Journal of Music Education, v. 9, n. 1, p. 19-48, 1992.
ELLIOTT, David J. Music matters: a new philosophy of music education. New York: Oxford University Press, 1995.
SWANWICK, Keith. Ensinando música musicalmente. São Paulo, Moderna, 2003.

Viviane Beineke é educadora musical, Mestre e Doutoranda em Educação Musical pelo PPG-Música da UFRGS e professora do Depto. de Música da UDESC, Santa Catarina. Autora da coleção "Canções do mundo para tocar", com arranjos para grupo instrumental e do livro/CD/CD-Rom infantil "Lenga la lenga: jogos de mãos e copos".

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Linque: www.lengalalenga.com.br

 
Comentários (4)
Música na sala de aula
4 Sáb, 22 de Maio de 2010 23:56
???
A prática de levar a música para sala de aula não é só algo que agrada as crianças. A criança precisa ser habituada a se expressar, não só oralmente, mas também musicalmente. A música é um poderoso recurso educativo que representa uma importante fonte de estímulos, equilíbrio e felicidade para a criança. Segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação infantil a temática foi proposta com a finalidade de despertar a curiosidade e o interesse das crianças para instrumentos musicais e/ou para objetos sonoros, além de contribuir para o entendimento de questões elementares referente à produção do som, às suas qualidades e ao funcionamento dos instrumentos musicais, através de sua construção utilizando materiais alternativos.
comentário
3 Ter, 15 de Setembro de 2009 09:11
???
Dinara, Bom dia!
No texto de Viviane (acima) recomenda Swanwick que podemos fundir a educação formal e a música de "fora" na atividade de composição.
Não seria este o seu caso? se é que entendi a sua mensagem.
Abraço, Salete
BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS - ANTIGAS E ATUAIS. COM PORTINARI.
2 Dom, 13 de Setembro de 2009 17:39
???
ESTOU MONTANDO MINHA MONOGRAFIA , E GOSTARIA DE MAIS DICAS DE LINKS REFERENTES A ESTE TEMA.
MUITO OBRIGADA.
midia e educação musical
1 Seg, 18 de Maio de 2009 18:01
???
uma das preocupações como educadora musical é como tratar a interferencia da musica televisiva na vivencia do aluno.
concordo com as proposições dos metodos, processos de composição, etcetc.
porém sabe-se que existe uma grande lacuna entre a educação musical formal e a vivencia do aluno em seu dia a dia.
como , ou seria possível reaproveitar o material musical de péssima qualidade, que o aluno de certa forma já tem introjetado?pagodes, bregas, etc...

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