Entrevista: Celso Sisto PDF Imprimir E-mail
Literatura - Artigos e Teses
Escrito por Adriana Napoli   
 Segue abaixo entrevista exclusiva para o Portal Cultura Infância, com o escritor, ilustrador e contador de histórias Celso Sisto, concedida à atriz e arte-educadora Adriana Napoli.
 
Portal Cultura Infância: Qual livro marcou a sua infância e fez com que você tivesse gosto pela leitura?
Celso Sisto: Muitos livros marcaram a minha infância. Eu fui sempre um grande leitor, um leitor voraz desde pequeno! Os contos de fadas marcaram a minha infância. O soldadinho de chumbo (de Hans Christian Andersen) era a minha história preferida, na infância. Mas no ginásio eu amava ler os clássicos da literatura brasileira, que as professoras pediam. Meu primeiro grande impacto literário veio com o livro “O menino de asas”, de Homero Homem, que nem é quase lido hoje. O dia mais feliz da minha vida foi quando fomos à casa dele.
A nossa professora conseguiu que ele nos recebesse em seu apartamento. Eu estava na 6ª série. Foi uma experiência impactante para o resto da minha vida! Assim como foi impactante ler O PEQUENO PRÍNCIPE. O contato com a linguagem poética e ao mesmo tempo filosófica de Antoine Saint Exupéry me fez desejar escrever coisas tão bonitas quanto ele.
 
PCI: Hoje em dia você já tem 34 livros publicados. Iniciar uma carreira como escritor é muito difícil?
Celso Sisto: Já são 38 livros, neste momento. Todo início é sempre difícil. Nunca sabemos que dificuldades encontraremos pela frente. Eu, por exemplo, comecei escrevendo histórias para ler para meus alunos na sala de aula. Eu era professor do Instituto Nazaré, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Era o professor de literatura de todas as turmas do colégio, do Jardim de Infância à 4ªsérie. Todos os alunos passavam por mim uma vez por semana. Eu lhes contava histórias e trabalhava com essas histórias das maneiras mais variadas possíveis. Depois, em sala de aula, os professores continuavam explorando essas histórias. Então, foi para esses alunos que eu comecei a escrever histórias, com uma pretensão profissional. Na época eu já tinha feito Letras, Artes Cênicas e era aluno de uma Especialização em Literatura Infantil e Juvenil e trabalhava também na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, com resenhas críticas. Eu já estava inteiramente mergulhado nesse universo da literatura infantil, de uma forma profissional. Mas quando mandei meu primeiro texto para uma editora, tremi nas bases. O medo de ser recusado é real sempre e até hoje ele existe. Não é porque você escreveu um texto bom que tudo o que você fizer vai ser aprovado pelas editoras. Aliás, é preciso pensar no perfil das editoras... existem editoras de todos os tipos, das mais comerciais às mais experimentais! Mas acabei indo parar numa editora porque me viram contar histórias num evento público, para professores e souberam que eu tinha um monte de textos na gaveta. Foi então como contador de histórias, do grupo Morandubetá (RJ) que eu fui descoberto como escritor!
 
PCI: Você também enveredou pelo campo das ilustrações. Um livro destinado a crianças deve necessariamente ser ilustrado?
Celso Sisto: Olha, esse negócio de “deve” e “necessariamente” é muito complicado! Depende do livro, depende do texto e depende de quem vai mediar esse texto com a criança. Um contador de histórias conta histórias para as crianças, as mesmas histórias que estão nos livros e não precisa das ilustrações. Então, depende. A emoção, o ritmo, a expressão corporal, todos esses elementos atuam no lugar da ilustração. Mas um livro ilustrado tem é que ser bem ilustrado! A ilustração tem que funcionar como um elemento de diálogo entre texto e imagem e não um elemento decorativo ou redundante do texto. Isso é o que tem que ser pensado!

PCI: Você ministra oficinas de contação de histórias. É possível ensinar alguém a ser contador ou depende de um dom da pessoa?
Celso Sisto: Tudo se pode ensinar. Quem tiver mais habilidades, pode caminhar mais rápido, quem tiver menos, pode caminhar mais devagar. Mas tudo depende do desejo e do interesse das pessoas. Se eu quero, se busco, se procuro, certamente chegarei a fazer bem o que me proponho a fazer. Mas, claro, há os “iluminados”, os “geniais”, que encantam com tudo o que fazem. Outros, para encantarem, precisam trabalhar muito, sem trégua! O que eu trabalho nas oficinas são coisas que dizem respeito ao instrumental humano, elementos que todos possuem, mas que precisam ser trabalhados, percebidos, exercitados com um propósito definido, para que se possa usá-los em função de uma história. O resto é perfumaria!!!!!
 
PCI: Para você, é importante garantir que histórias infantis, tenham um “final feliz”?
Celso Sisto: De jeito nenhum. É importante garantir que se escrevam e se contem boas histórias. Histórias de grande qualidade literária, e que não façam concessões a qualquer tipo de pedagogismo ou moralismo! As histórias que querem ensinar coisas às crianças são tudo, menos literatura! Eu estou interessado é na literatura. E se isso fosse claro na cabeça das pessoas, eu nem precisaria colocar aqui o adjetivo “qualidade”: estou interessado na literatura de qualidade!!!! Pais e professores muitas vezes estão preocupados com livros e histórias que possam ser usadas para ensinar alguma coisa! E aí, reduzem todo e qualquer livro à sua função utilitária!!! E o lúdico, o encantamento, a beleza da criação lingüística ficam totalmente esquecidos! Mas sem esses elementos, não existe literatura!!!! Existem livros, claro. Mas nem todo livro para criança é literatura infantil!

PCI: Já assisti a muitas contações de histórias que inserem tantos elementos cênicos, que acabam ficando num limite muito tênue entre a contação e um espetáculo épico. Nestes casos, o que diferencia uma contação de um espetáculo teatral com recursos narrativos?
 Celso Sisto: O limite entre a contação de histórias e o teatro é um limite muito tênue mesmo! A contação de histórias é sim uma atividade cênica. O que não quer dizer que um contador de histórias tenha que fazer teatro. O contador de histórias tem é que contar bem a história que se propõem contar e fazer com que ela chegue ao público de uma forma intensa, sugerindo, proporcionando emoções, estimulando a criação de imagens mentais e propiciando uma relação de co-autoria entre quem conta e quem ouve, tudo embalado por uma aura de encantamento. Não dá pra fingir que um contador de histórias não usa elementos dramáticos: levantar a voz para se dirigir ao público, se colocar numa posição de destaque em que todos olham pra você, usar a sua emoção em função do que você diz, com ritmo e com entonação – tudo isso é elemento dramático. Se para isso o contador vai usar elementos externos, não importa. O que tem que haver é um equilíbrio... se os elementos externos são em demasia, eles mascaram a história e muitas vezes mascaram também as deficiências dos contadores de histórias. O mais importante é que os elementos internos (corpo, voz, emoção, ritmo, clima, naturalidade, espontaneidade, memória, olhar, musicalidade) e o domínio do texto sejam a tônica de toda e qualquer atividade de narração oral. Sem esquecer, é claro, de uma palavrinha mágica que é a “adequação”.
Adequação é que é o termômetro de um contador de histórias: adequação ao espaço, ao público, de linguagem, de recursos... O contador de histórias é um instrumento da história que ele conta. O que acontece com muita freqüência é exatamente o contrário, a história servindo de instrumento para ressaltar para o público as habilidades do contador de histórias, com um subtexto do tipo: “veja como eu sou bom! Como eu canto, danço, represento! E ainda faço rir e chorar!!”. Outra coisa importante que não pode ser esquecida: nem todo texto escrito tem trânsito livre para a oralidade. Ou seja, às vezes um texto literário não serve para ser contado oralmente. E um contador de histórias, sem conhecimento e vivência literária, não pode fazer adaptações de textos autorais para a oralidade, sob pena de acabar com o texto alheio.
PCI: Você também é crítico de livros infantis. Analisar obras destinadas à criança é diferente de criticar livros para o público adulto? São observados outros critérios?
Celso Sisto: Embora estejamos dentro do campo da LITERATURA, uma obra destinada ao leitor infantil tem suas especificidades, seu público leitor que é diferente do público da literatura dita adulta. Mas um bom livro infantil é aquele que agrada TAMBÉM às crianças. E pode ser lido por ela com grande proveito, no sentido do lúdico, do encantamento, do interesse. Um livro infantil toca também naquela palavra que mencionei para os contadores de histórias: “ADEQUAÇÃO”. É preciso observar a quem se dirige o livro, a linguagem usada pelo autor, como ele “arma” a história, em quê consiste sua originalidade; se ele usa uma linguagem poética ou cotidiana, se os personagens são bem construídos, se o conflito existe (é preciso que exista pelo menos um conflito numa narrativa, para que ela se mova...), de que maneira o autor explora o tema, se há, sobretudo, espaço para o leitor completar a leitura nas entrelinhas. Algumas coisas dessas são válidas para a literatura como um todo. Em se tratando de um livro ilustrado, é preciso ainda observar como a imagem dialoga com o texto, se ela amplia os significados do texto, se ela é apenas um ornato ou não, se os materiais utilizados foram suficientes para criar uma “cena” instigante, cheia de possibilidades de leituras.
PCI: Para você, um bom livro para crianças deve transmitir valores ou ter conteúdo educativo?
Celso Sisto: Nenhuma das duas coisas deve ser a preocupação de quem quer escrever boas histórias para as crianças. Valores são transmitidos, a despeito de serem verbalizados claramente e didaticamente. E toda e qualquer boa obra ensina uma infinidade de coisas. O problema está em querer reduzir uma obra a valores específicos e ensinamentos específicos. E querer que as pessoas todas leiam da mesma forma e cheguem às mesmas conclusões!!! Aí ela deixa de ser literatura e passa ser cartilha!!!! Vira livro didático e livro para-literário! A preocupação de quem quer escrever boas histórias para crianças deveria ser sobretudo com a leitura. Um escritor tem que ser um grande leitor!!!! Ler as grandes obras, de todo e qualquer tempo. Frequentar livrarias, conhecer os livros novos, os livros que estão sendo premiados, os livros que estão sendo lidos. É assim que se aprende. Um escritor tem que ser antes de tudo um leitor atento! E não ter pressa! E estar disposto a refazer, reescrever seu texto muitíssimas vezes! E não deixar de perceber todos os elementos que eu citei na resposta acima.

PCI: Em sua opinião, os meios eletrônicos (games, internet, televisão) realmente atrapalham as crianças a praticarem a leitura?
Celso Sisto: De jeito nenhum. Os meios eletrônicos, se devidamente monitorados pelos adultos, desenvolvem uma série de habilidades nas crianças: rapidez de raciocínio, criatividade, possibilidades de resolução de conflitos, etc.  Os pais ou responsáveis é que precisam dosar o uso! Mas não se pode esquecer uma coisa muito importante: se a criança já construiu o conceito de que a leitura é algo positivo, ela saberá se mover sozinha, senão, o pai, o professor, a biblioteca pública têm essa função de construir o conceito de que ler é um bem positivo para todo mundo. E mais: relacionar-se com a criança, intermediado por um livro, solidifica as relações, aproxima, constrói a imagem da literatura embalada pelo diálogo e pelo afeto. Isso dura pra vida toda!

PCI: Atualmente como você vê o panorama literário para crianças?  (Há novos escritores se dedicando para este público? São produzidas obras de qualidade?)
Celso Sisto: O panorama atual é rico e tem de tudo. Há os modismos, os trabalhos mais sérios, mais elaborados e a procura obsessiva da novidade. Há muitos escritores novos, e o corre-corre das editoras atrás das novidades é uma constante. Vamos entender novidade aqui como a necessidade obsessiva de estar lançando todo ano um número “x” de livros, em nome apenas da renovação numérica e da dinâmica do mercado. Nem sempre louvável. Acabam tendo mais destaque as obras das editoras que tem mais distribuidores, que oferecem mais prêmios aos professores que adotarem os livros de seus catálogos. Isso é uma bola de neve, porque há, inclusive, adoção de livros em escolas, sem que o professor se dê ao trabalho de ler o livro; ele se contenta em ler apenas a sinopse do livro.
Não nos esqueçamos: escritor bom e reconhecido também pode fazer coisa ruim!!!
Há tanto livro e tanto escritor novo que a gente mal consegue acompanhar. Mas o que há é uma série de livros bem embalados, bem ilustrados, com projetos gráficos primorosos e textos fracos. Resta saber o que vai resistir e o que não vai adiante. Publicar livros não faz de ninguém um bom escritor. Assim como há editores que são pessoas de marketing, muito mais preocupadas com o produto do que com a literatura. De toda forma, são raros os livros que fogem ao modelo tradicional de histórias (embora se queira que elas sejam bem contadas). Os editores têm medo de investir, de verdade, em quem subverte o modelo de uma história linear, basicamente construída com situações de causa e efeito e com um final redentor e feliz. Deixa-se que as ousadias literárias fiquem apenas para a literatura adulta. E com isso, muitas vezes, subestima-se o leitor criança! Também ainda há temas proibidos para a literatura infantil, pasme! E ainda há censura também em relação ao uso de palavras... Em que mundo vivemos nós? Essa literatura edulcorada, cor-de-rosa e que quer apequenar o mundo para ele ficar do exato tamanho das crianças deveria ser banida de uma vez por todas!!!! Para se ter uma idéia, de tudo o que é produzido anualmente, se salvarmos uns 10 por cento da produção como obra de qualidade, é muito. E eu não sou pessimista!!!!
 
Comentários (1)
parabens!!!
1 Sáb, 08 de Maio de 2010 01:48
???
eu sou academica do curso de letras da universidade federal da grande dourados(UFGD),gostaria de parabeniza-lo pelos seus livros que sao otimos!!!amei algus que li principalmente o"domar monstros". e muito interessante.parabenizo pelo trabalho e continue escrevendo bons livros para nos pequenos leitores.obrigada,um abraço!!!

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